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O que é Maçonaria, qual a sua Filosofia e Realidade atual

Muitos perguntam o que é a Maçonaria, se ela é uma religião, quais são os seus segredos, seus símbolos e qual é o papel do Maçom na sociedade.     A Maçonaria é uma instituição de caráter filosófico, filantrópico e progressista. Proclama a predominância do espírito sobre a matéria, busca respeitar todos os credos e religiões e evita discussões de política partidária. Utiliza uma variedade grande de símbolos, às vezes entendidos apenas pelos iniciados, mas cujos esclarecimentos estão disponíveis para o público (vide exemplos nos artigos “O significado da estrela na Maçonaria” e “Luz Triunfadora”).

A Maçonaria trabalha para o aperfeiçoamento moral social e cultural da humanidade através da construção do edifício social. A Maçonaria é uma sociedade apenas discreta, sem grandes segredos, pois os seus endereços são conhecidos e a sua doutrina está toda em livros vendidos abertamente. Dessa forma, o grande segredo da Maçonaria é não ter segredo algum, restringindo os seus segredos a sinais, toques e palavras de reconhecimento.

 


Origem da Maçonaria

Vários autores consideram a Maçonaria como sucessora das tradições dos Cavalheiros Templários, extintos em 1312, e este entendimento é reforçado pelo fato da Maçonaria ter surgido mais fortemente na Escócia, que era justamente o principal local de exílio dos últimos Templários, sendo que no início ela era chamada de Maçonaria Operativa, composta por Corporações de Ofício medievais de construção. Em 1602, com a união da Escócia e Inglaterra pelo Rei Jaime, a Maçonaria especulativa (cada vez menos formada por operários ligados à construção de igrejas e castelos, e mais por filósofos dedicados à construção de uma sociedade melhor) se espalhou na Inglaterra e posteriormente na França, devido ao exílio dos nobres da casa de Stuart naquele País, em decorrência de lutas pelo fortalecimento do Parlamentarismo a partir de 1642. Com a queda definitiva da dinastia dos Stuart e ascendência da dinastia de Hanover, em 1714, houve a necessidade de readaptação da Maçonaria, concretizada com a formação da Grande Loja da Inglaterra, em 1717.

Desde então, houve grande crescimento da Maçonaria no mundo todo, tendo participado dos grandes acontecimentos mundiais desde o séc.18, como, por exemplo, da independência dos EUA, quando os membros mais importantes do recém formado governo americano eram Maçons, inclusive baseando a “Declaração Universal dos Direitos Humanos” na filosofia Maçônica. Foram muitos os momentos que a Maçonaria lutou pela "soberania(ver texto) das nações.

Outros autores mais céticos refutam esta versão histórica por falta de comprovações.  Segundo eles, nada se pode afirmar com relação ao período anterior à criação da Grande Loja da Inglaterra.  Entretanto, tal discussão chega a ser irrelevante, pois o que importa é que os Maçons que codificaram os rituais e as bases da Maçonaria receberam influencias de várias organizações do passado ou contemporâneas, tendo refletido estas influencias na filosofia da Ordem Maçônica.

 

Misticismo e Magia na Maçonaria

Na antiguidade as Escolas de Mistérios Egípcias, Gregas e outras, buscavam adaptar o homem ao meio social. Os chamados Pequenos Mistérios visavam ensinar a moral e adequar o homem à vida social, formando cidadãos virtuosos e os Grandes Mistérios ensinavam ciências mais ou menos positivas, visando formar filósofos úteis e sábios, que seriam a luz da civilização.

Com o desenvolvimento filosófico da Maçonaria especulativa, ela passou a ser a principal herdeira dos conhecimentos das Escolas de Mistérios, com a diferença de que na antiguidade os ensinamentos eram dirigidos apenas para uma casta privilegiada, enquanto a Maçonaria teve como princípio espalhar os conhecimentos. Os Pequenos e Grandes Mistérios estão hoje contidos nos Graus Maçônicos. Por exemplo, o Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) é composto de 33 Graus, cada um com ensinamentos filosóficos e morais que contribuem para o aperfeiçoamento da humanidade e são administrados por Lojas de Simbolismo (Graus 1 a 3), Perfeição (Graus 4 a 14), Capítulo (Graus 15 a 18), Kadosh (Graus 19 a 30), Consistório (Graus 31 e 32) e Colégio dos Inspetores Gerais (Grau 33).

Ao longo do tempo, foram desenvolvidas várias vertentes, ou escolas, na Maçonaria, cada uma dando ênfase a uma determinada face da Maçonaria: a escola autêntica procurou examinar as antigas tradições da Maçonaria à luz dos registros históricos disponíveis; a escola antropológica fez analogia com os antigos mistérios de várias nações para o estudo e pesquisa da história maçônica; a escola mística viu a Maçonaria como um plano para o despertar espiritual e o desenvolvimento interior do homem, na busca de uma união consciente com o Divino, através do despertar induzido pela interpretação e vivência dos antigos Mistérios; finalmente, a escola oculta ou ritualística, deu ênfase na eficácia sacramental do cerimonial maçônico (ritual) como forma de expansão de consciência para a união consciente com o Divino.

A filosofia é atualmente entendida como uma grande reflexão, enquanto que o misticismo, ligado aos mistérios, sempre foi considerado como uma forma necessária a toda religião, pois elas tinham vários dogmas. Entretanto, na antiguidade, a filosofia envolveu de misticismo todas as verdades e os magos fizeram um mistério de cada uma das verdades filosóficas. Dessa forma, a palavra mistério ficou associada à filosofia primitiva e não à religião, e a magia foi envolvida em um manto misterioso, despertando admiração e medo nas pessoas comuns. O folclore a respeito do potencial da magia sempre foi intenso e dependente de crenças individuais, pois nunca existiram fatos observáveis e mensuráveis. A magia tratada nos antigos textos místicos tinha muito a ver com o conceito hermético de "transmutação mental", forma de psicologia mística prática, que tinha como objetivo a transformação das condições mentais para atingir outros planos de vida mais elevados, dentro da idéia do universo gerado, criado e existente na mente infinita do TODO, que muitos designavam sob o termo de divindades.  O TODO é definido como a infinita mente que os iluminados chamam de espírito, responsável pela criação do universo, de modo semelhante ao que o homem cria as imagens mentais. Assim fazemos parte da mente do TODO e, dentro do princípio hermético de que "assim como é em cima é embaixo", herdamos poderes e atributos superiores da mente-pai. 

Posteriormente, este conceito de magia foi aproveitado pelos alquimistas, paralelamente na busca de transmutação de metais inferiores em ouro, que eles consideravam como a substância mais perfeita e imperecível. A realização de experiências químicas à procura da pedra filosofal, que transformaria tudo em ouro, tinha o seu paralelo na busca da iluminação espiritual através da realização da “Grande Obra”, que era a transformação de pessoas comuns em pessoas espiritualizadas, com um estado superior de consciência e sentimentos nobres, através de fórmulas consideradas mágicas. Com o passar do tempo, o conceito esotérico de magia ficou sendo a capacidade de transformação de pessoas através de métodos que não eram de conhecimento geral, sendo que as antigas Escolas de Mistérios tinham esta capacidade de transformação dos indivíduos, sem que se compreendesse bem o seu mecanismo.

Modernamente, Bandler e Grinder desenvolveram os conceitos da PNL (Programação NeuroLinguística) a partir das habilidades linguísticas apresentadas por alguns psicoterapeutas, tornando compreensíveis e suscetíveis de aprendizagem os métodos de transformação das pessoas, detalhando no livro “A Estrutura da Magia” os conceitos e técnicas envolvidos na magia de mudança de comportamento, logicamente centrando na busca de solução dos problemas de ordem psicológica. De qualquer forma, guardadas as devidas proporções, os ensinamentos herméticos de Transmutação Mental (mudança de estado, forma ou condição), considerados a única chave-mestra para abrir todas as portas dos ensinamentos ocultos, estão sendo colocados à prova, considerando a máxima hermética de que poucos em cada geração estão preparados para a verdade, ou poderão reconhecê-la quando ela lhes for apresentada.

Além dos estudos místicos, a Maçonaria prioriza "o trabalho(ver texto) e, diferentemente de outras Instituições filosóficas, prega a intervenção social, com a participação efetiva do Maçom na sociedade e no processo político, para promover o seu aperfeiçoamento. Esta utopia de construção do Edifício Social é o grande diferencial da Maçonaria em relação às outras ordens esotéricas, místicas ou filosóficas, porém a concretização deste objetivo utópico tem sido cada vez mais difícil, como veremos adiante.

 

Situação da Maçonaria no mundo atual

Após um período de grande crescimento, atualmente a Maçonaria encontra-se em um estágio que alguns pesquisadores têm classificado como “declinante”.

Nos EUA a rápida redução do número de Maçons, associado à elevação da idade média dos participantes da Maçonaria, tem causado muitas preocupações a respeito do futuro da Maçonaria naquele País, que tem a maior quantidade de Maçons no mundo, pois, aparentemente, a nova geração não está se entusiasmando em assumir os compromissos maçônicos. De quatro milhões de Maçons em 1959, hoje ela está reduzida a cerca de um milhão e meio.

Na Inglaterra, a Maçonaria tem sido ligada à monarquia e à Igreja Anglicana, resultando que desde o séc. 18, todos os Grãos Mestres naquele País tem sido nobres ligados à realeza britânica, com mandato vitalício e sem eleição, e existe uma certa discriminação, pois para participar da administração da Grande Loja da Inglaterra é necessário que seja Anglicano.

A Maçonaria ligada ao Grande Oriente da França deixou de exigir a crença em Deus e permitiu a filiação de mulheres, rompendo com a Maçonaria da Inglaterra. Foi também criada a Grande Loja Feminina da França, com a filiação de cerca de 7 mil mulheres. Segundo avaliação dos próprios franceses, predomina atualmente na Maçonaria da França o culto ao ritual, sendo dada pouca importância à participação social.

 

Situação da Maçonaria no Brasil atual

Da mesma forma no Brasil, a Maçonaria embora tenha participado de grandes eventos nacionais como a independência e a proclamação da República, no momento a Maçonaria encontra-se em um estágio que podemos chamar de pouca participação política, desde a instalação do “Estado Novo” de Getúlio Vargas, quando a Maçonaria passou a ter participação decrescente na definição dos destinos do País.

A situação atual do Brasil, de corrupção endêmica e institucional, limita severamente a possibilidade de atuação da Maçonaria no governo. Historicamente, a Maçonaria ganhou força através do apoio e da participação de Maçons em cargos importantes no governo, como na proclamação da República no Brasil, quando todo o gabinete inicial era formado por Maçons. Entretanto, em consequência da falta de perspectiva de solução do problema da corrupção endêmica, tem sido crescente a tendência da Maçonaria, como instituição, de distanciamento político do governo, não importando qual o partido que esteja no poder.

Os altos custos envolvidos nas campanhas políticas criam a necessidade de levantamento de recursos extraordinários para a manutenção dos cargos políticos. Aparentemente, essa grande exigência de recursos para que os políticos possam viabilizar os projetos de disputa de eleições, criam as condições favoráveis para o ambiente de corrupção pública atualmente existente no Brasil. O ambiente mínimo de segurança para estas atividades ilícitas foi criado com a prerrogativa dos governantes em nomear juízes do Supremo Tribunal Federal, dos Tribunais de Contas, as cúpulas do Ministério Público, da Polícia Federal e das Polícias Militares e Civis, garantindo uma hegemonia e fortalecimento do grupo no poder. Desse modo, todas as ações anticorrupção perdem força e eventualmente estas instituições podem até ser utilizadas contra os adversários. É lógico que esta segurança é relativa e sujeita à perda de controle, se o clamor público atingir níveis insustentáveis, como mostra o julgamento do STF a respeito do mensalão.

Entretanto, normalmente esta estrutura no poder funciona bem para garantir as alianças partidárias para a governança, através da proteção dos aliados políticos e da perseguição dos inimigos políticos mais radicais. É lógico que os adversários políticos mais moderados são poupados, pois a possível alternância política recomenda cautela e tolerância para com aqueles que poderão vir a ocupar o poder no futuro. Este não é o caso de eventuais organizações ou agentes isolados que porventura tentem moralizar o processo político, atuando como verdadeiros Dom Quixotes, pois estes podem ser simplesmente afastados administrativamente, se exercerem cargos de confiança, ou passarem a responder processos e acusações infundados, sofrendo pesadamente com as instituições sob controle do grupo no poder. Grande parte da imprensa (jornais, televisões e blogs), altamente dependente do governo e regada generosamente com verbas governamentais, contribui para desmoralizar quaisquer adversários do grupo no poder. Se tais represálias não forem suficientes, resta ainda enfrentar as armadilhas montadas ou o criminoso braço armado a soldo de quem possa pagar.

Neste contexto, a convivência com os níveis decisórios do governo implica necessariamente em conivência ou emudecimento. A Maçonaria não dispõe de condições para lutar contra este estado de coisa. Qualquer tentativa só irá gerar desgastes e processos contra a instituição e, por este motivo, é crescente a alienação dos Maçons no processo político. Esporadicamente são gerados manifestos políticos inócuos, pois quanto maior a repercussão, maior o risco de represália. Mas esta situação não ocorre apenas com a Maçonaria: as organizações ligadas a empresários também são forçadas a se alienarem, pois a pesada carga dos tributos, aliada ao cipoal da legislação tributária e trabalhista, criam grande fragilidade dos empresários, de todos os portes, em relação ao governo. Mesmo que venha atuando com muita correção no mercado, basta se falar em devassa fiscal nas suas empresas para que qualquer empresário passe de opositor a colaborador incondicional. 

Além do mais, é evidente que as atrações do mundo material (poder, riqueza, vaidade, prazer) são muito fortes e não é o fato de se pertencer à Ordem Maçônica que vai deixar alguém totalmente imune a elas, principalmente em um contexto de total impotência para mudança na forma de condução das coisas públicas. Por isso a conclusão lógica é que seria melhor que a Maçonaria tivesse como diretriz permanecer afastada do centro de poder político, enquanto não fosse resolvida a questão crucial da necessidade contínua de angariar recursos para financiamento de campanhas políticas, ou seja, enquanto houver obstáculos praticamente intransponíveis para se conseguir moralizar a atividade pública.

Consequentemente, no Brasil resta à Maçonaria a atuação filantrópica (ver texto: "Beneficência, filantropia e caridade na Maçonaria") ou como instituição filosófica, limitando sua capacidade de transformação social. O misticismo tem, entretanto, a consolação de que para sermos vitoriosos contra  o mal não devemos lutar contra ele, mas ignorá-lo, procurarmos o caminho da luz e, através do amor, expandirmos a luz para outras pessoas. Para isso, é necessária a compreensão de que as trevas são apenas a ausência da luz e a obscuridade tem a sua realidade apenas na consciência do homem imperfeito, cuja ignorância e pensamentos negativos são o caminho para se fazer o mal. Nesse sentido, devemos procurar nos afastar, pois permanecer entre as trevas mesmo que seja para combatê-las, significa ficar sempre distante da luz.  Pitágoras disse: "anima-te por teres de suportar as injustiças; a verdadeira desgraça consiste em cometê-las". 


Conclusão

A Maçonaria é uma Ordem universal, sem objetivos lucrativos, que tem por finalidade a busca do aprimoramento moral de seus membros e da humanidade, através da investigação constante da verdade e da prática das virtudes. Ela defende a liberdade de pensamento e de expressão e combate a ignorância, a superstição e o fanatismo. Talvez por esse motivo, existe uma enormidade de visões da Maçonaria, tendo, na prática, cada Maçom a sua visão pessoal da Ordem e de sua história, por isso é difícil responder de forma definitiva o que é a Maçonaria e como surgiu. Entretanto, alguns postulados e princípios gerais, chamados de landmark (antigas leis que regem a Maçonaria universal) são amplamente aceitos.
 
A Maçonaria não é uma religião e isto já ficou legalmente estabelecido em decisão do STF.  Embora não seja uma religião e pregue a convivência respeitosa com todas as manifestações religiosas, o relacionamento com as várias organizações religiosas tem sido muito problemático ao longo do tempo, como se pode verificar no artigo “A Maçonaria é Luciferiana?” (ver texto).  Além do mais, devido à existência de uma infinidade de calúnias e difamações, é importante ressaltar que a natureza da Maçonaria não é incompatível com os verdadeiros valores cristãos, conforme discutido no texto "A verdade sobre Jesus Cristo e sua relação com a Maçonaria(ver texto).

Em termos práticos, a utopia de construção do Edifício Social, através da intervenção social tem sido negligenciada em vários países, por diversas razões. Além disso, existe um sentimento generalizado de falha ou deficiência na divulgação dos elevados preceitos da Maçonaria e uma certa apatia na defesa de acusações injustas feitas à Ordem ou a seus membros. A Maçonaria ainda mantém um culto ao "Poder do Silencio" (ver texto).

O pensamento místico e filosófico que ainda predomina na Maçonaria, tem contribuído para a sua aura de mistério e induzido muitos Maçons à reflexão, mas o respeito mútuo, a tolerância e a integridade pessoal têm sido os principais alicerces para a utopia restauradora que se espera da Maçonaria para este 3° milênio.

 


Texto de Manoel Tavares Santos

As conclusões deste artigo são opiniões pessoais do autor e não reflete a posição institucional da Maçonaria.

 

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